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A origem do Stop Motion

Atualizado: 21 de fev. de 2023

O encontro entre a mágica, a animação e o cinema.

Méliès e seu estúdio, em Montreuil, nos arredores de Paris

Já virou clichê dizer que a animação é uma coisa mágica. Com ela podemos dar alma a objetos inanimados. Fotos transformam-se em movimento, movimentos transformam-se em sentimentos e de repente um personagem ganha vida. Essa é a origem da palavra animar: “dar alma”, “dar vida”. Sua história confunde-se com a própria história das artes, e podemos encontrar representações do movimento dos animais já nas pinturas e gravuras rupestres, feitas por nossos antepassados, os homens das cavernas. Mas a técnica de animação que conhecemos como stop motion é muito recente. Ela surgiu justamente do encontro entre a mágica, o ilusionismo, a fotografia e o cinema, e isso aconteceu em Paris, em meados da década de 1890.


Era uma época que fervilhava de novas invenções. Diversas máquinas e equipamentos relacionados à fotografia (e também inúmeras imitações) eram apresentados para audiências entusiasmadas, principalmente na Europa e nos EUA. Por uma série de fatores, uma dessas invenções acabou ofuscando todas as outras: o cinematógrafo, uma máquina capaz de fotografar e projetar imagens em sequência.


Cinematógrafo


desenho técnico

Aos olhos do público, os primeiros filmes dos irmãos Lumière, inventores do cinematógrafo, pareciam reais, e justamente esse realismo é que era visto na época como a grande “mágica”: levar para o interior de uma sala escura as cenas do mundo lá fora, ricas em movimento, textura e profundidade. Suas famosas imagens do trem, chegando na estação, eram uma novidade tão surpreendente que fizeram os espectadores saltarem das cadeiras com medo de serem atropelados pela locomotiva projetada na tela. Mas passado o impacto inicial da novidade, o “truque” popularizou-se e o interesse das pessoas pelo cinema, recém-nascido, foi diminuindo.

Irmãos Lumière

Chegada de um trem a La Ciotat , 1895 (créditos: Bernard de Go Mars )

Até que, pelas mãos de um outro francês visionário, o cinema passou por uma grande revolução. Georges Méliès (1861-1938) descrevia-se como “um amante das artes mágicas”. Bem sucedido ilusionista de palco, ele viu na produção de filmes um caminho natural para explorar sua arte, e foi assim que o cinema encontrou-se com a mágica.

Georges Méliès

O que todos consideram como a primeira sessão de cinema da história aconteceu em 28 de Dezembro de 1895, na Sala Indien, no porão do Grand Café, em Paris. Foi onde os Irmãos Lumière projetaram as imagens do seu cinematógrafo para um pequeno grupo de curiosos espectadores. E entre os cerca de 35 convidados, estava Georges Méliès:


“Nós ficamos lá sentados com nossas bocas abertas, sem falar nada, cheios de espanto.”


G. Méliès

Sala Indien

Na época, Méliès tinha 34 anos e era diretor e dono de um teatro, onde ele apresentava seus espetáculos de mágica. Desde os 7 anos, Méliès já mostrava seus primeiros talentos com desenhos e marionetes. Aos 20, sonhava em estudar belas-artes, mas teve de contentar-se com aulas particulares de pintura enquanto trabalhava na fábrica de botas do pai, supervisionando o funcionamento das máquinas. Curiosamente, essa mistura de aptidões artísticas e mecânicas seria muito útil na sua futura carreira de mágico-cineasta.


Com 22 anos de idade, Méliès viajou para Londres a fim de aprender inglês e fazer novos contatos no ramo de calçados. Durante o ano em que viveu lá, distraía-se indo ao teatro. Como não dominava bem a língua, preferia os espetáculos mais visuais, de mímica, pantomima e mágica. Quando voltou a Paris, em 1885, resolveu perseguir sua nova paixão. Começou praticando pequenos truques de ilusionismo, que mostrava para seus amigos, e dois anos depois já se apresentava em museus e galerias. Até que, em 1888, o jovem mágico tornou-se o proprietário do ilustre Teatro Robert-Houdin.


Pequeno mas prestigiado, o teatro havia pertencido ao próprio Jean-Eugène Robert-Houdin (1805-1871), famoso mágico, considerado o pai do ilusionismo moderno e principal inspiração de Harry Houdini (cujo verdadeiro nome era Ehrich Weiss, 1874-1926). Por isso, o teatro já estava equipado com diversas portas secretas, alçapões, polias e todo tipo de dispositivos mecânicos usados para criar ilusões. De 1888 a 1895, Méliès dedicou-se exclusivamente às suas apresentações, que costumavam incluir truques de mágica, pantomimas com temas fantásticos e projeções com a lanterna-mágica. Entre cada um dos os números, os espectadores divertiam-se com os autômatos, figuras mecanizadas que Méliès “herdou” de Houdin junto com o teatro.


No dia em que Méliès assistiu à projeção dos irmãos Lumiére, percebeu logo o poder daquelas fotografias em movimento:


“Estávamos todos estupefatos. Eu imediatamente disse: ‘Isso é o que eu quero para mim… um truque extraordinário!'”

G. Méliès


Ele resolveu incluir o cinematógrafo em suas apresentações, mas, apesar de várias ofertas, Antoine Lumière (pais dos irmãos Lumières) não quis lhe vender, pois achava que o cinema seria uma moda passageira e por isso queria ter a exclusividade enquanto fosse novidade.

Determinado, Méliès viajou a Londres e comprou um projetor chamado animatógrafo (1). De volta a Paris, juntou-se a dois amigos para aperfeiçoar e modificar a máquina, usando peças e mecanismos que tinha no teatro. No início de 1896 ele já estava usando seu próprio equipamento de filmagem e projeção, o Méliès-Reulos Cinetógrafo (2), ou “moedor de café”, como Méliès gostava de chamá-lo, por causa do barulho que fazia enquanto estava filmando.


Primeira câmera 35mm de Méliès (do arquivo da Cinémathèque Française)


Um dia, conta Méliès, enquanto filmava cenas do cotidiano com seu “moedor de café”, na Place de L’Opéra, em Paris, a câmera emperrou:


“Demorou um minuto para soltar o filme e fazer a câmera funcionar novamente. Durante esse minuto, as pessoas, ônibus e veículos, é claro, se moveram. Projetando o filme, […] de repente vi um ônibus transformar-se em um carro funerário e um homem em uma mulher. O truque da substituição foi descoberto, e dois dias depois fiz minhas primeiras metamorfoses de homem em mulher e os primeiros desaparecimentos, que tiveram um grande sucesso.”

G. Méliès


Essa versão da descoberta da substituição é um pouco contestada (3), apesar de já fazer parte do nosso imaginário. Mas o fato é que, a partir de 1896, o truque da substituição passou a ser usado por Méliès em diversos dos seus filmes. O primeiro deles foi The Vanishing Lady (Escamotage d’une dame chez Robert-Houdin), onde uma mulher desaparece sob um lençol, e depois reaparece transformada em esqueleto.


Escamotage d’une dame chez Robert-Houdin (The Vanishing Lady, 1896)

Méliès chamava o truque de substitution par arrêt de camerá, ou, em português “substituição através da parada da câmera”. Na tradução para o inglês, a técnica ficou conhecida como stop motion (“arrête de camerá”, ou “parar o movimento da câmera”). Foi o primeiro truque de ilusionismo da história do cinema, e abriu as portas para a fantasia, a ficção científica e todo tipo de universos imaginários.


“[…] não demorou muito para que os efeitos aparentemente mágicos dos filmes, como dissolve, splicing e múltipla exposição, se tornassem o vocabulário básico do filme realista. A história do cinema é de fato a história dessa mudança, desse processo de transformar magia em realidade; e Méliès é o mágico que primeiro realizou essa façanha. […] seus filmes foram inovadores e responsáveis por antecipar e influenciar todas as grandes correntes cinematográficas do século XX. ”

E. Ezra


“[Quero] usar o cinema, não para a reprodução servil da natureza, mas para a expressão espetacular de ideias artísticas e imaginativas de todos os tipos.”

G. Méliès


Graças a Méliès, o truque da substituição espalhou-se rapidamente. Novos cineastas, principalmente na Europa e nos Estados Unidos, faziam seus próprios “trick films” (trick em inglês significa “truque”), e não demorou muito até alguém perceber que era possível fazer um tuque atrás do outro, uma mágica atrás da outra, parando completamente o motor da câmera e tirando uma foto de cada vez, em uma determinada sequência. Como na mágica da substituição, o truque ficava escondido entre uma foto e outra, assim o animador podia manipular a vontade os objetos, e depois eles pareciam estar movendo-se sozinhos. Foi assim que o cinema encontrou-se com a animação, e desse encontro surgiu o stop motion como é conhecido hoje, o truque de dar vida e movimentos mágicos a objetos reais, inanimados.


Isso aconteceu em 1898, e a história ainda guarda certo mistério a respeito. Apesar de quase não haver registros, Méliès parece ter sido novamente o pioneiro, animando vinhetas publicitária para uma marca de mostarda, fotografando blocos de madeira com as letras do alfabeto para formar o nome do anunciante (4). Mas, curiosamente, o mágico francês nunca incorporou a animação ao seu universo fantástico e, apesar do seu pioneirismo, foram James Stuart Blackton e Arthur Melbourne-Cooper quem deram os passos seguintes na trilha do stop motion, um caminho que estava apenas começando a ser desbravado.



 

Notas:


1 - O inventor era Robert William Paul e sua máquina chamava-se animatógrafo, mas na verdade era um “kinetoscópio não autorizado”, cópia do projeto de Thomas Edson, que por sua vez já havia se baseado nas ideias de Marey.


2 - Também chamado de ‘Kinétographe Robert-Houdin’, com patente de 4 de Setembro de 1896.


3 - O truque da substituição apareceu pela primeira vez em 1895, em um filme da companhia de Thomas Edison chamado The Execution of Mary, Queen of Scots, em apenas uma cena, envolvendo uma guilhotina e uma cabeça falsa. Apesar disso, foi Méliès quem primeiro explorou amplamente as possibilidades da técnica.


4 - “Méliès produced in 1898 the first sequences of photographed animation in a series of little commercial films made to be projected on an open-air screen on the Boulevard des Italiens. In some of these ‘films de publicité’ a comic scene would end with a shot of scrambled letters arranging themselves to form the name of the product, e.g. Bornibus Mustard. Méliès achieved this effect, which delighted the pedestrians on the boulevard, by arranging white letters on a black table-top and then rearranging them between the moments when the crank of the camera was given an eighth or quarter turn to expose one or two frames.” ‘Sight and Sound’, The Origins of Animation, Vol. 49, No. 3, Summer 1980′” Giannalberto Bendazzi, Animation, a World History, vol. 1



Bibliografia:


- Georgés Méliès – French Film Directors – Elizabeth Ezra (2000)

- Animation, a World History, vol. 1 (2015) – Giannalberto Bendazzi (2015)

- A Century Of Stop Motion Animation – Ray Harryhausen e Tony Dalton (2008)

- Truques da Mente – Stephen L. Macknik e Susana Martinez-Conde (2010)



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